15.4.12

Contravenção x ideologia.

As contravenções perderam ideologia, as ideologias não tem mais contravenções para usar.

Contravenção: ato ou efeito de contravir 2(jur) transgressão de dispositivos estabelecidos em regulamentos, contratos ou leis. Oposição, ação de ir contra. (Houaiss)

Ideologia: ciência proposta pelo filósofo francês Destutt de Tracy, nos parâmetros do materialismo iluminista, que atribui  a origem das ideias humanas às percepções sensoriais do mundo externo 4 sistema de ideias (crenças, tradições, princípios e mitos) interdependentes, sustentadas por um por um grupo social de qualquer natureza ou dimensões, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos. (Houaiss)

Aqui era para ter um figura que representasse ideologia, eis o ponto chave da minha explanação, a representação sensorial –visual ou sonora de uma ideia. Coloque a primeira que vier a sua mente.
Meu foco maior é sobre o ponto de vista cultural.

Sobre o ponto de vista religioso, acho que o mundo ou está radicalizando, voltando a ortodoxia sem fundamentos ou está diluindo tudo e personalizando crenças, também sem fundamentos.

Voltando a visão cultural, sempre terá uns 15% da população que terá uma posição cultural definida, alguns só vão manifestar estas posições em determinada idade, aqui vejo os metaleiros. Tem os hipsters, que sempre existiram e sempre existirão, com outros nomes. E tem os que buscarão a cultura em si, sua função de solidificar conhecimentos e ampliar a visão do ser humano. Nem sempre a sua visão será melhor do que a existente, assim como os hipsters, vazios de conteúdo, podem ter os radicais com muita fé nas suas ideias, somados a energia de sua pouca idade.

Acho que aqui está o ponto onde entra a contravenção cultural, visual, o ir contra o estabelecido.


Mas não vou falar dos hippies punks rajneesh, isto esta muito bem resumido na música dos replicantes.
O que quero falar é sobre os outros 85% da população (estes números são meus e não tem embasamento nenhum, apenas a minha observação).

A uns 5 anos atrás eu ouvi a notícia bombástica de uma artista argentina que estava vendendo sabonetes fabricados com a gordura retirada dela, em uma lipoaspiração.
Opa, que originalidade?!?!?!, perai acho que eu já vi isto em algum lugar… sim em um filme do cara que esta por casar, em breve, com a Angelina Jolie.

Vemos cabelos moicanos em celebridades e crianças, alguma diferença?
Calças rasgadas em qualquer lugar. Tatuagens e piercings em qualquer lombo, o que elas significam? - Ah não sei, a fulana que aparece na tv tem, ou pior, a fulana que copiou da sicrana da tv tem.

O que já foi contravenção um dia hoje esta diluído na grande massa, sem uma ideologia. O pior, na maioria das vezes de modo contraditório, onde a desculpa veem como – sou eclético.



As novas ideologias , que na verdade são reedição de uma antiga, não tem mais identificação visual que possa contravir ao estabelecido.

As celebridades, que precisam se destacar num ambiente saturado, necessitam de apelos visuais cada vez mais esdruxulo e queimam todos os cartuchos.
Fazem a função de um Prometeu as avessas, que ao invés de trazer fogo ao homem, lhes entrega a caixa de pandora.

E a grande massa abre esta caixinha sem a menor preocupação.

Bem, após um ano congelado, o blog volta ao ar. Minhas ideias continuam borbulhando, como sempre confusas e mal escritas, mas estão ai.

2.2.11

Never young again.

Este post vem de uma frase que aparece no clip Rome do Phoenix, este vídeo combina a música com fotos em P&B. Resumo ele como um mundo de dúvidas e de certezas absolutas.

NYA

Ele me remete a lembranças muito boas de uma época nem tanto. A fase de entrada na vida adulta, sensação de desligamento de regras e padrões familiares e convívio com pessoas com as mesmas expectativas, ambições e desejos.

1

- A época das dúvidas e certezas absolutas

4

O contraste destas palavras é o maior exemplo desta fase de descobertas e transição. Tu acha que pode tudo que tudo é viável e que é possível viver em um mundo platônico.

Todos estão errados, tudo esta errado só tu no auge das certezas absolutas sabe o que é certo para ti e o mundo.

3

Todas as dúvidas do novo, o baque da realidade, a venda para o sistema de cada um dos novos rebeldes.

2

Olhando para trás parece que tudo foi bobagem, vendo novos futuros adultos vem a imagem de uma processo meio sem lógica, mas muito necessário para formação de um novo Sr.(a).

To be continued,

Someday…

Nevermind.

As imagens foram tiradas do clip,

A época das dúvidas e certezas absolutas

31.1.11

Indignação

Fico indignado com a falta de indignação dos outros, ninguém faz nada contra toda esta bandalheira.

Dai eu penso, eu também não faço nada.

Então penso mais, a única coisa que pode causar indignação no brasileiro hoje é uma estranha sensação de injustiça,

 “Como todo mundo está se dando bem com as bandalheiras e eu não?”

Sinto total impotência para tentar mudar algo, não vejo solução nenhuma. A única possível é comigo mesmo, continuar fazendo o que acho correto, não entrar nesta de –estou em desvantagem não fazendo coisas erradas que todos fazem.

Usar as máximas, “Um erro não justifica outro” e “Faça aos outros o que gostaria que fizessem contigo”, sabendo que algumas pessoas podem ter valores diferentes, então tentar se colocar no lugar delas.

Não tenho soluções práticas, mas tenho umas soluções mirabolantes, umas exequíveis outras não.

-----  1  -----

A mais simples e totalmente praticável é mudar de país, mas nem todo país está afim de nos aceitar e nem todo país vale a pena.

-----  2  -----

Expulsar todos do país e fazer um teste de honestidade para quem poderia voltar, tipo fim do mundo, são Pedro selecionaria quem iria para o inferno, para o céu ou ficaria no limbo.

O inferno seria cheio de barzinho rolando pagode, sertaneja e carros com som a todo volume tocando pancadão e sujeitos em volta berrando porque seria impossível se comunicar com todo o barulho, muita cerveja (quente), brigas, discussão sobre futebol e carros. Cheio de mucréias se achando e se fazendo. A localização seria no RJ numa imensa laje a pleno meio dia cheia de meio-toneis com um currasquinho bem enfumaçado.

O limbo, como seria o limbo? Não tem como não ser como uma sala de espera de médico ou dentista. Aquela ansiedade da espera, de nunca ser chamado, sensação de jamais sair dali, musica de Richard Kleidman e Leo Galdeman, crianças chatas incomodando e querendo chamar atenção e as mães nem aí, e alguém soltando uns puns de vez em quando.


O céu, bom se você não optou pela minha descrição do inferno, que para muitos é o céu, então tu tem o direito de descrever o céu que quiser.

-----  3  -----

Outra solução seria implantar um chip na cabeça de todos os brasileiros e toda vez que alguém fosse fazer alguma coisa proibida por leis criadas por uma comissão internacional -proibido qualquer representante da américa latina, disparasse um sinal.

No momento que a pessoa idealizasse uma ação errada disparava um sinal que provocava uma diarréia aguda.

Vai matar algúem? diarréia,

Roubar algo? diarréia,

Vandalizar? diarréia,

Escutar sertaneja, pagode ou pancadão a todo volume? diarréia,

Cortar e aloprar no trânsito, diarréia.

Escrever algo como este texto… diarréia.

19.1.11

No futuro, todos serão famosos por 15 minutos.

Esta frase do Andy Warhol virou clichê e me intriga em seu significado. Abaixo faço algumas argumentações sobre o que acho que isto possa significar.

Primeiro, o cara profetizou o faça você mesmo? Ou seja, a desmitificação da arte e da exposição das pessoas. Certamente ele foi peça fundamental neste processo, mas acho que não basta tentar fazer arte para ter fama, não é qualquer um que fica famoso com a foto de uma lata de sopa.

Segundo, Andy estava sabendo da expansão e das novas mídias? ele previu a internet?

Pode-se pensar que além de todos poderem fazer arte “Do it yourself”, todos teriam onde expor sua arte, blogs, myspace, youtube, flickr. Isto garante que qualquer um possa ter fama? Acho que não, é só analisar os milhões de pessoas que usam estes recursos e estão em um anonimato total.

A minha terceira argumentação é um pouco mais confusa, mas vamos lá. Para ter mais exposição é necessário fazer algo (primeiro argumento), ter onde expor (segundo argumento) e é necessário público para isto, tem que aumentar o consumo para poder dar fama a "todos". Então começou uma troca em alguns meios, eu consumo a tua imagem se tu consumir a minha, eu te proporciono audiência se tu me der audiência. Este tipo de retroalimentação ou mesmo autofagia é comum em meios mais alternativos e em artes como dança e teatro, grande parte do público é do meio.

Quarta possibilidade, terão tantas pessoas com acesso a fama que não será possível ter mais do que 15 minutos para cada um. Esta idéia fecha com o meu argumento para a geração Y, onde o excesso causa superficialidade.

Carregador Ultra-Rápido IC-3 15 Minutos + 2 Pilhas AA 2000mAh Rayovac

Mas vejo que o ser humano é um grande voyerista e precisa de informações alheia para preencher seus vazios ou justificar seus desvios.

Nestas minhas argumentações todas convergem e realmente mostram que, intencionalmente ou não, Andy Warhol teve uma grande sacada que está disponível para todos os profetas do acontecido argumentarem e buscarem seus 15 minutos em cima desta afirmação.

30.7.10

Nós enquanto Robôs.

A inspiração deste post vem do blog do Mini, http://www.oesquema.com.br/conector/2010/07/22/robos.htm. Confere lá o cara é bom mesmo.

Sempre que leio sobre um assunto, o mesmo gera um monte de coisas na minha cabeça, tudo se conecta e embaralha nos meus pensamentos. Este post do blog conector, gerou as seguintes idéias, mas não só elas…

enquanto

A palavra enquanto,

Esta palavra usada neste significado, lá do título, veio da recente volta as salas de aula. Parecia ser,  pelo menos 2 anos atrás, um jargão bastante usado no meio pedagógico. Nas minhas leituras que estão nos clássicos, no pop ou então no técnico usam ela apenas como uma conjunção subordinativa para designar uma simultaneidade temporal, não uma simultaneidade existencial. Acho ela meio pedante, talvez pelo público que a utiliza, normalmente usam com uma entonação como se a palavra se elevasse e crescesse de tamanho delimitada por enormes aspas. Mas no fundo, ela com papel existencial, foi esclarecedora para mim, pois consegue discernir diversos estados que tudo pode tomar, algo como a eterna mutabilidade. Então acho a palavra “enquanto” bem taoista e bem legal para definir muita coisa.

robo_b9

Quando automatizar,

Outro item que está relacionado diretamente ao post é como utilizar automatismo em tarefas cotidianas. Isto é meio complicado de explanar, mas me lembra de um jovem que tem seu primeiro salário, porém as tarefas básicas ainda são mantidas pelos seus pais. Ou seja, ele só quer gastar o seu rico dinheirinho com o que lhe dá prazer, tipo comprar um tênis novo, vídeo game e CDs é com seu dinheiro, já as compras básicas, de manutenção e infra estrutura são com o dinheiro dos pais.

Quando se fala de ensino assistido por robôs, tema do Mini, todo mundo começa a se coçar. Se for o aprendizado padrão, alfabetização, matemática e ciências tem que ser feito por pessoas, pois tem-se a idéia de que isto é a formação da pessoa como indivíduo, então esta tarefa é de humanos, como um robô poderia se meter nisto?

Já se o ensino for profissional, como operar uma máquina, aprender um idioma por obrigação então parece ser tarefa chata, como comprar cuecas e meias com o próprio dinheiro para um jovem. Neste caso algumas pessoas aceitam um robô ou mesmo a transferência de conhecimento a lá matrix, coloca um capacete e faz um download.

Esta idéia de frieza que as máquinas tem versus o calor humano eu acho questionável, pois sempre as comparações são feitas de modo tendencioso, como se todos os professores fossem extremamente dedicados e tivessem como único objetivo o crescimento do seus pupilos.

tempo

E a velha questão do tempo,

Tenho a mania de pensar estas questões que agora causam controvérsia em outras épocas. Como será o ensino em 20, 40, 50, 100, 200, 500, vamos lá, vamos pensar mais adiante, daqui a 1000 anos, quem viver verá!

Por sinal, quando alguém souber de um download cerebral de pontuação favor me avisar, eu e as vírgulas, isto eu nunca vou aprender a usar direito.

1.7.10

É culpa do R.E.M

rem_best_of

Nos anos 80 surgiu um  conceito para um segmento de rock chamado “college rock“ baseado nas rádios universitárias.

Coisa de indie americano e o símbolo máximo deste conceito era e é para mim até hoje a banda R.E.M.

Na minha cabeça este conceito sempre teve a ver com os cursos de comunicação, que na época englobavam um monte de coisas, ou era jornalismo ou era comunicação, não tinha esta diversidade e ramificações de hoje, acho que até publicidade estava dentro desta célula tronco.

Neste meio surgiam bandas inspiradas em algo mais que só o som, tinha um conteúdo subjacente como cinema e literatura, além da preocupação de passar algo mais visual.

Estas bandas sempre tiveram um pé no underground, mas com um poder de agradar um público bem maior. O resto é história quem quiser que pesquise e escute, vale a pena.

Esta introdução torta é só para registrar minha indignação com o sobrenome “universitário” que vem sendo amplamente usado aqui na terrinha, tipo sertanejo universitário, forró universitário, pagode universitário e vanerão universitário.

Será que teremos músicas pós graduada? Que tal um funk mestrado.

Associar este sobrenome a estas coisas é bem reflexo do atual estado intelectual de nosso país. Onde se faz questão de desdenhar algo mais elaborado e intelectual, mas ao mesmo tempo todos querem se fazer de intelectuais e antenados, nem que seja fazendo citações ao twitter de celebridades “universitárias” (no sentido mais pejorativo possível para esta palavra).

Por que as pessoas não ficam no seu círculo, se assumem como são ao invés de ficarem criando artifícios para justificarem o que gostam, mas acham que não é legal. E neste processo tendem a atacar aqueles que elas “acham” que não aprovam seus gostos e ficam criando justificativas para desculpar suas ações.

Chega de “Fazidos” universitários, se assumam, não digam que estavam trocando de canal quando viram tal matéria no Silvio Santos.

19.5.10

Nothing Comes easy II

Não fui nem para o lado do super, do serviço e nem para o lado onde as mesas atrapalhavam o trânsito, fui para aquele beco que passei uma ou duas vezes. Fui andando, olhando para frente, para os lados, para cima e para trás caminhando de costas.

Comecei a perceber que este beco era antigo, lembrava algo de uma ruela européia, aquelas estreitas e com prédios de três andares e sacadas com detalhes em ferro, umas plantas em meio as sombras, cadeiras de quem senta para ler um livro, algo meio nostálgico e romântico.

Parei para observar detalhes das portas, janelas, numeração dos prédios, caixas de correio, objetos escondidos nas entradas trancadas dos prédios. Estranho não ter ninguém na rua, apenas sons, vindo dos corredores iluminados por um sol de primavera extremamente agradável.

rosa dos ventos

Observando estes corredores que dividem os prédios, da para ver algumas sobras de obras com uma certa organização, vasos de flores colocados aleatoriamente organizados, um pouco de mato, mas só para manter um charme. Cães? Não vejo cães e não sei por que parece que os moradores desta rua devem ser todos donos de gatos, talvez por estes labirintos formados entre prédios, janela que dão para telhados que podem ser pulados para sacadas, tudo me lembra os bichanos, até consigo ver um gato imaginário andando e roçando o corpo contra um objeto com aquela cara auto-suficiente, independente e não estou nem ai.

Logo a rua começa a terminar, tenho vontade de ficar por aqui e já antecipo saudades desta rua, minha vizinha desconhecida.

A rua termina, poderia dizer também, que começa aqui, mas a numeração foi crescente e termina aqui mesmo. Desemboca em uma rua larga, movimentada, clara, uma rua de trânsito com muitos ônibus, apesar disto tem certo movimento nas calçadas, como é um bairro meio boêmio cai no padrão de comercio típico dos habitantes e frequentadores. O público noturno não tem vez agora, os bares e restaurantes estão fechados, somente lancherias e seus indefectíveis produtos gordurosos, doces meio molhados, mesa cheia de farelos e aquelas máquinas de café que são limpas na mesma frequencia da caixa d'água do prédio onde moro.

Futuro, passado, presente[1]_

Pego a esquerda, na rua que tem nome de um herói da minha terra, que nem lembro mais o que fez, mas toda cidade do estado tem uma rua com seu nome.

Caminho um pouco, apesar de ser cedo esta rua reflete claridade de todos os lados, o aconchego das sombras da rua anterior me faz falta.

Resolvo voltar pela mesma calçada, olhar novamente a rua que ficou em meus pensamentos e depois seguir de novo por este caminho.

Uma coisa eu tenho certo, não há caminho, distância, direção e velocidade que tenho que seguir hoje, só tenho que ficar no máximo até as 9:00h de quarta feira andando.

A rua está lá do mesmo jeito, e não é que agora vejo dois gatos silenciosos pulando telhados e sacadas?

Não noite anterior dei uma olhada no mapa, pelo menos das redondezas, para me situar, a maioria das ruas em um raio de 1 km eu já devo ter passado, ou ao menos parado em uma das pontas e caminhado mentalmente e visualizados os prédios.

passado

Volto então para o meu caminho, pisando pela terceira vez aquelas pedras disformes e antigas da calçada, lá pelo décimo passo vejo uma entrada em arco, antiga, com plantas trepadeiras nela agarradas - opa, isto não estava aqui a minutos, não estava nas minhas lembranças exploratórias da região, muito menos no mapa que tinha olhado ontem.

Andando uns 5 metros além arco, abre-se uma espécie de praça totalmente redonda, deve ter cerca de 15 metros de raio, no centro um canteiro circular com plantas variadas e quatro bancos posicionados exatamente na rosa dos ventos desenhada no chão.

No limite externo deste circulo existem cercas baixas que delimitam os acessos das casas que circundam a praça, com jardins variados, expressando os gostos de cada morador. Não vejo ninguém, janelas abertas, sacadas com roupas pegando ar, prédios parecidos, com 2 andares e cores e texturas diferentes, plantas trepadeiras que extrapolam a fronteira dos terrenos.

i-ching-coins

Neste limite externo também existem quatro bancos alinhados com os bancos norte, oeste, sul e leste do canteiro central, todo o piso é de paralelepípedo extremamente gasto, realmente com aparência secular, de milhões de pés que os atritaram até ficarem polidos.

A paisagem que aparece por detrás dos prédios, acima dos telhados, é diferente do que deveria ser. Saí de uma rua plana, de um bairro fronteiriço ao centro com seus prédios altos e velhos, para o outro lado é uma planície longa cortada por um rio.

E o que vejo é, ao norte é um pico nevado, ao leste sinto uma brisa marinha com nuvens brancas  e gaivotas, ao sul , ao longe uma cadeia de montanhas vermelhas e no oeste, acima da linha dos prédios, um pedacinho de um horizonte escuro iluminado por uns raios de uma tormenta.

tormenta

Ando em círculos pelo canteiro, sentido horário, sentido anti-horário, mais de uma vez. E a cada romper dos limites imaginários gerados pelas pontas da rosa dos ventos, percebo uma mudança de temperatura de umidade e principalmente uma mudança em meu humor, entre norte e oeste nostalgia, oeste e sul algo parecido com esperança, fé. Sul e leste uma alegria estrema e finalmente entre leste e norte pareço voltar ao normal, ali também está o arco de entrada, ele mostra a rua lá fora, mas a paisagem acima dos prédios não tem nada a ver com a continuidade esperada.

Todas estas mudanças climáticas parecem ter efeito somente dentro do círculo e fora do canteiro, pois a vegetação dos jardins das casas e mesmo do canteiro não condizem com o clima proposto pelo quadrante.

Os bancos que estão alinhados na ponta de cada flecha da rosa dos ventos variam de cor, norte vermelho, oeste, amarelo, sul azul e leste violeta.

Sento primeiro no banco vermelho, de costas para o canteiro. A sensação de estar sobre um ponto cardeal, a fronteira entre dois outros, é de isolamento do ambiente e este isolamento também é emocional, nada parece interferir, olho para frente fecho os olhos e começo a ver algo parecido com o futuro, mas uma visão física, primal de um futuro, somente objetos, prédios, automóveis. São um conjunto muito grande de visões, ao abrir os olhos fui até o banco vermelho no lado oposto, cortinas fechadas as imagens familiares de meu passado, diversos objetos que tive, que quis ter, que desejei, que invejei; carros, roupas, casas, paisagens, brinquedos, todos vindo com suas cores e cheiro.

BANCO_~1

Já no banco interno amarelo, visão de pessoas. Que conheço que não conheço que acho que conheço, parentes, colegas, amigos, uns se indo, todos envelhecendo, pessoas diferentes sem dúvida, mesmo as tão próximas.

Todas estas visões eram processadas sob o efeito da ausência de sentimentos, assegurada pelos pontos cardeais e seu isolamento.

Mesmo ausentes do sentimento  elas são visualizadas com a distorção do sentimento do momento onde elas foram memorizadas.

Banco amarelo externo, mais pessoas,  todas conhecidas, alguma esquecidas, mas todas as pessoas e agora também todos os animais de meu passado.

Percebo que a diferença entre os bancos interno e externo de cada ponto cardeal não se resume a futuro e passado, é algo como uma visão externa e interna de mim. O que foi assimilado ou vivido por mim seja no passado, ou o que esta por vir ou que já passou ou deixou de acontecer comigo como personagem.

taoismo_

Banco azul interno, não vejo nada, somente sensações, dor, alegria, frio, náuseas, deslizar no tempo, aperto no peito, taquicardia. No banco externo nada muito diferente, apenas uma percepção de intimidade com as sensações.

Confesso que nesta hora já estou confuso, com medo, sinto-me desligado daquele mundo que vivi até horas atrás, que foi perturbado pelas bolhas de sabão.

O último banco, cor lilás, junção do vermelho material com o azul de pensamento, antes de fechar os olhos não olho para frente e sim para cima, e naquele instante tudo fez sentido.

fim